Vida após a morte

Hoje vou apontar, usando minha lógica incontestável de sempre, as inconsistências do conceito de vida após a morte. Depois disso, vou me dedicar a tarefas de igual importância, como coçar o cotovelo e juntar vinte e sete reais em moedas de um centavo. Como podem ver, hoje será um dia de grandes eventos para mim e para a filosofia ocidental, nessa ordem.

A ideia de vida após a morte já é, em si, uma inversão. Até onde se sabe, a morte é que vem depois da vida. Isso já está comprovado há milênios pela observação do que acontece no final da vida a terceiros. É certo que se trata, em última instância, de uma presunção: você jamais poderá ter certeza de que a morte também acontecerá com você, exceto morrendo. Eis aqui um paradoxo.

Morte após a vida, esse conceito se conhece bem. Vida após a morte após a vida, essa por sua vez é apenas uma hipótese, e das confusas. Seus defensores argumentam que se trata de um tipo diferente de vida: não se espera de um cadáver fresco que se levante e comece a falar sobre trivialidades – antes disso, eles certamente exigiriam caixões mais espaçosos. A vida após a morte que pregam as autoridades metafísicas, os livros sagrados e os biscoitos da sorte chineses é uma abstração, e difere ligeiramente de acordo com o grupo de lunáticos que a relata.

Entre os que creem no além-tumba, contudo, parece ser um consenso o fato de que, após a morte, a continuidade da vida se dá num espaço especial, seja esse o Céu, o Inferno, o Purgatório, o Mundo das Ideias ou a franquia mais próxima do Outback Steakhouse. Para alguns desses lugares hipotéticos, a alma é enviada direto de acordo com seu comportamento na Terra. Para outros, é preciso fazer uma reserva na entrada e aguardar até que haja uma mesa livre. Em todos os casos, contudo, é de se esperar que esses espaços já estejam lotados, especialmente nas sextas à noite.

O Céu, por sua definição, seria um lugar de paz eterna, felicidade e conforto. É exagero supor que um lugar como esse tenha internet banda larga? Já não teríamos recebido a essa altura um e-mail, um telefonema ou ao menos um cartão de Natal? É preciso arranjar um passatempo; nuvens parecem confortáveis, mas isso não parece o suficiente para me convencer a ficar deitado numa pela eternidade. Eu, uma vez vivo-após-o-morto, certamente me divertiria passando trotes para familiares e amigos sugestionáveis.

Tudo indica que só encerraremos esse debate com meu falecimento – que não deve demorar tanto, considerando meus hábitos alimentares. Quando isso acontecer e eu constatar que não existe nada após a morte, aguardem um telegrama dizendo “Eu avisei”. E ignorem o fato de que isso será um novo paradoxo.

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