Socializando com os Sociólogos

Fui às compras com Marx essa semana. Karl Marx, infelizmente. Groucho Marx não atendia o celular. André Marques seria minha segunda opção, mas já era quase hora do Vídeo Show.

Com o cabelo cortado, uma barba bem aparada e óculos de sol, quase não reconheci Marx. Veio buscar-me em um sedan 2011 com bancos de couro e rumamos para o Superfluous Mall. Tudo que eu planejava era escolher uma gravata, mas Marx saía de cada loja com uma camisa polo, um cordão de prata ou um aparador eletrônico de pelos nasais. Comentei o quanto nos últimos anos ele havia se tornado materialista, e demos algumas gargalhadas.

Nos sentamos no Pizza Vomitorium e pedimos uma pizza; o garçom, educadamente, explicou-nos que estavam em falta, mas ficaria feliz em trazer-nos um parfait de fruit à coque. Por princípio, não como nada que não possa pronunciar (também não como nada que tenha azeitonas, carne de guaxinim ou doses letais de toxinas, embora não fosse nenhum desses o caso), mas Marx aceitou satisfeito a oferta. Deu ao rapaz uma nota de cem e disse-lhe que ficasse com a mais-valia.

Conversamos sobre os velhos amigos, com os quais eu havia perdido o contato quando passei a dedicar-me exclusivamente a não fazer coisa alguma. Marx disse que, poucos dias antes, tinha ido com Max Weber a um restaurante mexicano. Disse que Weber se sentia pessoalmente realizado: havia aposentado no serviço público e finalmente encontrava tempo para sua grande paixão, a Fórmula 1. Beberam algumas micheladas, tiveram uma discussão sobre como soletrar Sozialwissenschaft ao contrário e deram algumas gargalhadas.

Perguntei por Émile Durkheim, e Marx contou-me que estavam brigados. Em uma festa de Halloween, Marx fora fantasiado de Durkheim, mas Durkheim também fora fantasiado de si mesmo, o que feriu seus sentimentos. Marx acusou-o de falta de consciência de classe e Durkheim alegou que Marx não tinha consciência coletiva. A discussão chamou a atenção de toda a festa e foi considerada pelos colunistas de jornais um grande fato social.

Preferi não tomar partido na briga, e Marx disse que não sou dialético o suficiente. O garçom voltou trazendo a comida impronunciável e perguntou se gostaríamos de mais alguma coisa; pedi uma tese, Marx pediu uma antítese e o garçom anunciou que ganharíamos uma síntese como cortesia da casa. Fez-se um breve silêncio e então Marx, o garçom e eu demos algumas gargalhadas.

Uma resposta para Socializando com os Sociólogos

  1. Enzo Mayer Tessarolo disse:

    Ah, quantas lembranças tenho desses camaradas.

    Veja só que coincidência. Esta semana eu também fui fazer compras com um grande amigo, a Rosa Luxemburgo. Buscávamos no shopping produtos que nos permitissem vivenciar ao máximo os prazeres que nos são garantidos no capitalismo tardio. Rosa me contou que há algum tempo sentia-se maravilhada com o excesso de liberdade e com a vida cheia de prazer e felicidades que podia ter.

    Hanna Arendt, que experimentava uma calça Levi’s na cabine ao lado, ouviu o depoimento de Rosa e a alertou que para viver o imperativo da felicidade extrema era preciso evitar os excessos perigosos. Nada adianta beber até cair todos os dias se você não vai conseguir passar dos 27 anos, disse ela – dos seus 105 anos de sabedoria.

    Decidimos parar para refletir um pouco sobre aquilo na praça de alimentação, enquanto bebíamos café descafeinado com leite sem gordura, comíamos pão integral light com salada do Mc Donald’s e, para enlouquecer um pouco as coisas, bebemos cerveja sem álcool. Como era esperado, essa combinação não caiu muito bem: precisamos comprar um chocolate laxante e correr para casa.

    No dia seguinte, Rosa me ligou para dizer que Hanna havia lhe tirado do estado de alienação em que se encontrava. Ela disse ter percebido que, na verdade, vivemos numa sociedade de prazer constrangido, em que a ausência de lei universaliza a proibição. Eu concordei e citei Dostoievski: “se Deus não existe, tudo é permitido”. Não sei se a Rosa realmente gostou da citação ou se ela ainda estava sob efeito da cerveja sem álcool, mas logo depois me referir aos Irmãos Karamazov ela se ofereceu pra fazer sexo virtual.

    Abraços,
    Gramsci.

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