72 volts ou mais

Conta-se em minha família a engraçada – porém muito, muito triste – história do primo Otavinho que, já no fim da adolescência, conectou oito baterias de nove volts uma na outra e encostou nos contatos das extremidades, tomando assim um choque que jamais esqueceria. O motivo, ou ao menos é o que dizem, é que o rapaz começou a ver cores vivas, formas claras, e teve uma sensação de completude, de conexão com o universo e com o sentido de tudo. Ou como diz o tio Aurélio de forma mais simples, ficou completamente chapado.

Otavinho guardou o segredo para si e passou a ser conhecido entre os primos como O Grande Larápio de Carrinhos de Controle Remoto. Nenhuma bateria de nove volts podia ser deixada por perto ou ele, por razões ainda desconhecidas, sumia com a coisa. Aparecia algumas horas depois, com um sorriso inabalável e um olhar distante da realidade.

Otavinho experimentou, também. Seis baterias de doze volts e o mesmo efeito era alcançado. Mas o mais incrível foi a descoberta que fez depois: 71 volts causavam um formigamento insuportável no braço; 73 volts, e uma dor aguda até o ombro. Setenta e dois, nem um volt a mais nem a menos, eram a chave do paraíso e de sensações indescritíveis, de sentimentos maravilhosos e de um arrepio duradouro pela espinha.

Bateria de nove volts, também conhecida como "papelote"

É claro que os pais, quando o encontraram no quarto agarrado ao abajur  e cantarolando “Eu não sou um alce!”, fizeram a única coisa que se poderia fazer: internaram o Otavinho na reabilitação. Tão eficiente quanto deixar de castigo um ladrão dentro do cofre do banco. Na clínica, mantendo o vício com pilhas roubadas de controles remotos, contrabandeando baterias e aprendendo com outros como ele, descobriu algo ainda mais intenso: choques de 144 volts. Depois disso, foi um caminho sem volta pela tabuada de 12: 288, 576… certo dia, Otavinho foi encontrado morto – mas aparentemente muito feliz -, no chão da clínica, após aplicar em si mesmo um delicioso e letal choque de 1152 volts.

Há opiniões diferentes sobre esse eletrizante final. A maior parte dos conhecidos acha que foi uma overdose como outra qualquer, mas alguns parentes e amigos, especialmente os mais jovens, achavam que o Otavinho tinha finalmente conseguido se conectar com o universo, agora a longo prazo.

Palpites à parte, as baterias de nove volts continuam sumindo na família e carrinhos de controle remoto passaram a ser um presente muito mal visto nas festas de natal.

3 respostas para 72 volts ou mais

  1. Rufio disse:

    Caros senhores lupinos,

    Venho pro meio deste pedir-lhes o apoio para a minha nobre causa. Talvez a mais nobre das causas, se me permitem a falta de modéstia, mas como dizia Jerry Lewis: “se você é bom e sabe que é bom, pra que perder tempo sendo modesto”. Eu sou advogado e levo aos tribunais o caso da joaninha. Não, não é uma anã que se chama Joana, é realmente uma joaninha. Meu cliente é uma joaninha macho e protesta em favor de todas as joaninhas macho do mundo. É duro ser uma joaninha macho. Por ser uma joaninha a sexualidade de meu cliente é constantemente questionada. Joaninhas são associadas a flores e a primavera e cá entre nós, há algo mais gay que flores e a primavera? Meu cliente demanda que seja associado com o outono, estação mais máscula, e o machado, símbolos da força da joaninha. Por último, mas não menos importante, demanda o direito de alterar legalmente seu nome para Joãozinho, visto os grandes constrangimentos que o seu nome lhe traz.

    Conto com vossa colaboração,

    Eu

  2. tutu disse:

    rachei

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