Conversas de Avião

– Viajando a negócios?

– Não, não. Estou pelo passeio mesmo. Sempre me visto bem quando pego um avião. Por isso, o terno. Acho que é uma questão de respeito. E você? Indo trabalhar?

Pensou. Não sabia a resposta. Estava num avião e nem sabia para onde estava indo, quanto mais fazer o que. Pensou em mentir, inventar que era vendedor de sabonetes. Ficaria óbvio demais, nem sabia nada sobre sabonetes.

Podia dizer que estava indo a passeio também. Mas o homem poderia se empolgar e começar a falar sobre os pontos turísticos, os passeios e os museus do lugar. Como não sabia nada sobre onde estava indo, seria facilmente desmascarado.

Preferiu ser honesto. Além do que, queria saber para que raios de lugar estava se destinando. Respirou fundo e perguntou, por mais louco e vergonhoso que fosse:

– Pra onde é que este avião está indo?

O outro riu. Depois se deu conta de que a pergunta era séria e resolveu responder.

– Para o Iraque.

Iraque? Como assim? Por que estava indo para o Iraque? O que faria lá? Teria sido sequestrado por terroristas? E que tipo de turismo seu colega de viagem faria?

– Você tá brincando, né?

O homem riu de novo. Se conteve, e respondeu:

– Sim, eu estou brincando.

Soltou outra gargalhada, dessa vez mais solta que as outras duas.

Sem graça, o outro deu uma risada discreta, apenas para acompanhar seu parceiro.

– Esse avião vai pra Nova Iorque.

Grandes prédios, museus, o Central Park, compras… Nova Iorque parecia um lugar seguro. Pôde relaxar.

– Agora que você sabe para onde estamos indo, poderia me dizer o que vai fazer lá?

A satisfação se tornou rapidamente angústia. E, após refletir um pouco, uma aflição ainda maior:

– Não tenho visto para os Estados Unidos. Vou ser barrado.

O companheiro riu.

–  É sério.

– Está se preocupando com o visto? Você não tem mala, dinheiro, seguro, documento… Não tem nada!

Era uma piada, só podia ser. Esse sujeito estranho, deveria ser uma pegadinha, e em breve descobriria a câmera e se sentaria num sofá com sua família para rir da situação.

Ficou em silêncio aguardando a revelação. Mas tudo permaneceu como se nada estivesse acontecendo.

– O que que eu vou fazer?

– Não sei, você ainda tem 5 horas de vôo, pode achar uma solução.

5 horas de vôo num fluxo irreversivel. 5 horas como um boi caminhando em direção ao matadouro.

– Por que estou nesse avião?

– Amigo, relaxa. Já pensou em pedir um emprego pra chefe de cabine? Pode apresentar seu currículo.

Pareceu uma ideia absurda, mas diante de todo o absurdo da situação…

– Não tenho documento nenhum.

– Bem, currículo não é exatamente um documento, e você sempre carrega um em sua meia, não?

De fato carregava. Foi pegar o papel, quando se deu conta:

– Como que você sabe tudo isso?

– Como sei? Como sei? Eu escrevi esse conto.

Isso mesmo, eu sou o personagem dessa história. Cada palavra é uma mentira, uma mentira que me agrada e me satisfaz. Mas não podia deixar tudo dessa maneira.

– Não, estou brincando. Eu não escrevi nada.

E gargalhei, como da vez em que falei do Iraque. O homem ficou um pouco assustado, mas se conformou por uns instantes até se dar conta de que minha piada não respondia sua pergunta.

– Então como você sabia do meu currículo?

– Oras, porque isso é um delírio do inconsciente: um sonho.

Um sonho? Seria um sonho? Se fosse realmente um sonho, e tendo consciência disso, poderia controlar o sonho. Se esforçou e não conseguiu. Estava submetido a mim, o Escritor, o verdadeiro criador. Por mais que quisesse tentar! Não conseguiria: a ficção é minha, e ele vai ter que tentar entregar o currículo para aeromoça!

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