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As paredes eram realmente feias. Rosas, descascando, com musgo. Fediam. Eram das poucas paredes do mundo que fediam. Mesmo assim seguiu em frente, seu nome havia sido chamado e agora não havia mais volta.

– Devia ter escolhido um plano de saúde melhor, disse para si.

Seguiu em frente. Um calafrio sem sentido percorreu seu corpo. Parecia que já vivera aquela cena antes, muitas vezes. E, ao mesmo tempo, era uma situação inédita. Não era como um dejàvu, era mais quente e concreto que um dejàvu. Talvez fosse só medo: estranhamento mesmo. “Devem ser as paredes…” pensou. Poderia ser só o medo do que lhe aguardava atrás daquela porta: um câncer? uma úlcera? diabete? impotência?

– Porra, é só um dentista.

Seguiu em frente por aquele corredor estranhamente familiar e familiarmente estranho.

Abriu a porta, lá estava o dentista: alto, gordo com uma roupa de Dr. Frankenstein – com direito a luva verde e tudo.

Ficou aliviado, mesmo achando tudo muito bizarro. Sentou na cadeira do dentista e abriu a boca. Se apresentou como psicólogo e citou Freud, logo em seguida.

– Freud? Psicológo? Não deveria ser um psicanalista?

Deu-lhe um soco no peito. Tudo preto. Tudo escuro. Tudo silencioso. Então, os dias passaram como se fossem cachorros. As metáforas perderam o sentido; mas o sentido não perdeu as metáforas.

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