Sistema de Desorganização

Vamos agora recapitular nosso Sistema de Desorganização. A base dos princípios pelos quais nosso grupo se desorganiza é uma série de axiomas simples e de fácil compreensão, seguidos por um corolário de desobediência aos mesmos, que anula o sistema antigo sem criar um sistema futuro e impede qualquer consideração acerca da existência de um sistema atual.

Segundo o nosso funcionamento, o corolário só pode ser violado com autorização extraordinária. Para propor a petição oficializada de desacato à desobediência, convoca-se uma assembleia extra-oficial, na qual deve estar presente um membro vitalício, que é eleito na hora. A assembleia é presidida por todos os presentes e as prerrogativas de iniciar a sessão, finalizar a sessão, conceder ou interromper a fala de um membro, falar algo com pouca relevância para o tema (ou mesmo sem nenhuma relevância para tema algum) pertencem exclusivamente a todo e cada um dos membros. Embora a fala caótica e simultânea de todos os participantes não seja obrigatória, ainda não tivemos experiência de uma assembleia que ocorresse de outra forma.

Uma vez que qualquer um é autorizado a terminar as reuniões, estas têm duração muito pequena, sendo encerradas e invalidadas cada vez que um dos presidentes se insatisfaz com o andamento das indecisões tomadas pela assembleia. Esse fato indesejável é equilibrado pelo de que, segundos depois, uma assembleia inteiramente nova é quase sempre iniciada por um dos presidentes da antiga, geralmente com os mesmos membros da assembleia anterior.

Até agora, o sistema de assembleias tem se mostrado muito eficaz para o nosso objetivo, embora ainda não saibamos que objetivo é esse. A Assembleia Fundamental, que rege o funcionamento do sistema de assembleias e cujas decisões só podem ser desacatadas mediante autorização de três assembleias consecutivas, ou de duas assembleias e de uma agremiação, ou de uma assembleia sim, outra não, foi responsável por vários dos princípios norteadores do nosso Sistema de Desorganização, embora nenhum deles tenha grande importância.

Uma dessas decisões fundamentais motivou a regulamentação de legitimidade das insurreições, já que qualquer assembleia pode ser declarada a nova Assembleia Fundamental, bastando que um membro manifeste esse desejo em voz alta durante a reunião, ainda que ninguém precise ouvi-lo. A complexidade desse adendo motivou mesmo a criação de um Manual da Dissidência, onde estavam listados minuciosamente os procedimentos para realizar e tornar legítima uma insurreição. Infelizmente, após concluída sua redação, o Manual já tinha sido anulado pela nova Assembleia Fundamental.

Em tempos de crise, a eleição de um Grão Mestre é outorgada à Assembleia Fundamental legitimada (ou a qualquer outra assembleia, desde que algum dos membros manifeste esse desejo em voz alta). O cargo de Grão Mestre é a posição mais alta na hierarquia do nosso Sistema de Desorganização, estando submetido apenas às decisões do Presidente Superior, cargo que só pode ser preenchido quando decidido e votado por unanimidade em uma assembleia de uma ou mais pessoas, ou por uma agremiação com duas pessoas ou menos, ou quando o nome de alguém for escrito num papel e afixado em lugar visível.

Ao Grão Mestre são concedidas as prerrogativas irrevogáveis de emitir opiniões, falar coisas, pensar a respeito de assuntos, manifestar ideias e divagar. Seus atos só podem ser invalidados ou distorcidos a mando do Pequeno Mestre, cargo cujo preenchimento não se sabe ao certo como funciona.

Qualquer um, no entanto, pode reivindicar o não-cumprimento de uma decisão do Grão Mestre tornando-se Líder Individual. Para isso, basta manifestar esse desejo em voz alta, sendo obrigatório que alguém o ouça, ou não.

O cargo de Líder Individual proporciona a total e inquestionável determinação de um (e apenas um) indivíduo, sendo este, em geral, o próprio Líder. Em circunstâncias extremas, contudo, é permitido ao aspirante a Líder Individual requerer a autoridade impreterível sobre outro indivíduo desde que, para isso, apresente por escrito o consentimento do indivíduo em questão, ou de outro indivíduo qualquer, ou o próprio consentimento.

Como se pode perceber, a apreensão das nuances do processo de desorganização é lenta e vem com a prática. Para que se compreenda totalmente a nossa sistemática, recomendamos a leitura completa, ou de capítulos aleatórios, ou de cabeça para baixo, de um dos inúmeros Manuais de Desorganização editados pelas Assembleias Fundamentais. Mas é preciso ter em mente que, ao final da leitura, todas as informações ali contidas já estarão completamente obsoletas.

2 respostas para Sistema de Desorganização

  1. Felisberto disse:

    ‘otimo.

    tudo foi descrito com absoluta clareza e objetividade. Nao ha como ter duvida alguma sobre o assunto.

    parabens pela excelente explanacao

    • Martinho Hoffman disse:

      Agradeço as palavras de carinho, Felisberto. Se há dois ideais pelos quais esse blog batalha, estes são a clareza e a objetividade.

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