O Tigre Mitológico no Aterro do Flamengo

“montado no tigre
eu me sinto bem mais livre
livre pra voar
e observar”

Quando Portugal conquistou Ceuta, o infante Dom Henrique virou o primeiro Duque de Viseu. Isso porque foi ele quem ajudou seu pai, Dom João I de Portugal, a montar sua campanha. Mas na verdade nada disso é importante para nós. A única coisa que importa é que todos esses acontecimentos importantes na história de Portugal e do mundo ganharam uma desimportancia diferenciada quando o Infante se despersonificou no nome da rua na qual minha história se passa. É sempre assim, as pessoas viram história, viram lendas, viram mitos e viram ruas, fazendo com que ninguém saiba quem são elas (as pessoas), apenas conhecem quem são elas (as ruas). Bom, no caso específico da Avenida Infante Dom Henrique, a situação é um pouco pior, as pessoas quase não se lembram do nome da avenida, e a chamam genericamente de “Aterro do Flamengo” – ou somente “aterro” dependendo do grau de intimidade com a cidade e a região. De fato a avenida em questão está no Aterro do Flamengo, já que a maior parte dessa avenida se encontra em uma área aterrada no bairro do Flamengo, mas o aterro é muito mais do que isso.
O tigre pesa quase uma tonelada. Um tonelada, diria um gringo. Mas o Tigre Mitológico é um mito e, mesmo com todo esse peso, se desloca com uma velocidade incrível. Mais rápido que o pensamento, diria outra pessoa que se impressionara também com seu peso. Domesticá-lo foi fácil: duas cabeças não pensam melhor que uma. O animal mitológico possui duas cabeças, ao contrário do que a mitologia tradicional vinha dizendo – se realmente tivesse três cabeças, uma seria a principal; o que complicaria minha missão: domesticar o terrível animal. Colocando-o sob meu domínio, estabelecemos uma relação de mutualismo: eu tomo decisões por ele e alimento-o; ele, por sua vez, é um excelente meio de transporte. Grande e rápido: um mito.

Era mais ou menos 4 da tarde, e como se convencionou, a orla carioca estava fechada para qualquer tipo de veículo. Dessa forma, o Tigre Mitológico era um grande adianto para chegar até a Praça XV; um dos tantos lugares eternizados na despersonificação urbana: uma praça cujo sentido de seu nome seria homenagear a República brasileira carrega consigo uma linda homenagem a Dom João; parente do Duque de Viseu.

Mas vamos ao que interessa: eu tinha 5 minutos para chegar à tal praça; antes que eles me pegassem. Eu poderia ser preso pela Polícia Federal e não sei o que seria do pobre Tigre Mitológico – que se de fato fosse um mito, resistiria por um bom tempo.

Haviam armado uma emboscada; eu tinha certeza disso. Por de trás de cada detalhe do Aterro, cada detalhe que jamais percebi, poderia haver um deles a minha espera. Poderiam estar por detrás da enorme cabeça de Getúlio Vargas, poderiam estar infiltrados aos escoteiros marchando alegremente pelo aterro, poderiam estar disfarçados como um casal abraçado que come um cachorro quente ou estar fingindo ser jogadores de futebol. Será que o tigre, como todo brasileiro que se preze seria um bom jogador? O Tigre Mitológico é um mito, seria um craque.

Eles são Os Botânicos. E aqui preciso explicar algumas coisas sobre os Botânicos: Embora sejam intitulados dessa forma, Os Botânicos não cuidam de plantas há muito tempo. Eles continuam sendo uns desses chatos ecológicos, preocupados com o futuro da humanidade, aquecimento global e todas as coisas que estamos fazendo que supostamente nos levam a um suicídio coletivo mundial. Porém, como todo ser humano que seja minimamente humano, eles também possuem interesses. Querem catalogar toda e qualquer espécie de ser vivo existente ou não no planeta para serem reconhecidos pela comunidade cientifica, entrarem para história, virarem lendas, mitos e ruas. No nosso caso, é óbvio que querem o Tigre: tigres mitológicos são animais em extinção.

Aeroporto Santos Dumont: lá estão eles, armados até os dentes. E como Santos Dumont, querem o reconhecimento de seu feito. Querem provar que o Tigre é brasileiro. O Tigre Mitológico é um mito, é brasileiro e foi descoberto pelos Botânicos: é isso que eles querem. Imagine só, a manchete nos jornais. Imagine só, os livros…

Acelerei o máximo que pude. E o que aconteceu depois não vou te contar. O Tigre Mitológico é um mito: história é invenção.

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